
Estava esperando o bebê da Renata nascer para publicar esse texto que adoro da Fernanda Young. Só que, pela alta incidência de bebês sendo gerados ultimamente, tive que adiantar a publicação.
Vou ser titia. Diva, minha irmã com quem nunca entro em sintonia, furou a fila e resolveu me dar um sobrinho (a).
Aliás, esse texto é a cara dela. Imagino todas as regalias que exigirá por carregar em seu ventre o primeiro herdeiro dessa família de padres e divorciadas de carreira. Tá bom. Vou dar esse crédito a ela.
JB, 31/JUL/2001.
Caro Jacques,
Carta serve para aliviar a sensação de que não fomos anteriormente compreendidos. Então a gente escreve uma carta quando acha que o outro devia receber, não quando a gente devia mandar. Quando o outro precisa entender aquele detalhe a mais, que ele displicentemente deixou passar. Um pequeno ingrediente da história que, pôxa, perdendo-se, leva a coisa toda junta para o brejo.
Mulheres escrevem mais cartas. Muito mais. Não quer dizer que as enviem, mas escrevem. Li recentemente um livro que fala exatamente sobre isso, e é a pura verdade. Tanto que meus romances podem ser considerados montanhas de cartas que eu não mandei. E agora, que surgiu essa oportunidade, quero começar a escrever e mandar, cartas e mais cartas. E mandar bem, quero dizer, mandar certas coisas para as pessoas certas. Mas não, não tema. Sua carta não é desaforada. Algumas serão, sim, no entanto a sua é apenas melancólica. Porque, pensando no que poderia dizer numa crônica semanal, lembrei-me das nossas antigas e semanais conversas. E me toquei que era mais fácil ter idéias quando ainda as tínhamos. E, um passo adiante disso, tive saudades brandas. Se fosse uma saudade avassaladora, você sabe, eu, de novo, ligaria. Mesmo que fosse só para dizer novamente que você é o Buda dos medíocres. Mas ligaria. Palavras ao telefone são, porém, convites aos mal-entendidos. E, cacete, estou cansada de ser mal-entendida. Por isso esta carta. Para lembrar você de que estou aqui, vivendo experiências novas demais para aguentá-las sozinha. Não sozinha sem amigos - alguns sobraram - nem sem amor - ele vem aos montes desses poucos amigos e de minha pequena e deliciosa família -, mas sozinha sem psicanalista. E, Jacques, você deveria saber que isso não se faz com ninguém. Pelo menos, no mínimo, eticamente. Psicanalistas não somem, não podem sumir. Desconfio até que são uns dos únicos que não podem sumir por lei. Psicanalistas e mães. Sendo que, das mães, não pretendo assumir o papel ridículo da cobrança choramingas. Vou fazer delas, portanto de mim, tão somente um bom assunto para iniciarmos essa improvável correspondência.
O fato é que, depois que virei mãe, luto infernalmente para não ceder às tentações de tornar-me uma chantagista. É que de mãe para chantagista é um passo de bebê. Aliás, a maternidade aflora diversos aspectos perigosos no caráter feminino, do horror aos ventos à paixão por doces. Embora nos acostumemos a ouvir somente a parte mais poética sobre o assunto. É que precisa ter muito colhão para assumir que a coisa não é tão bonitinha assim.
Para começar, mães não parem apenas devoção ou natureza. A gestação avaliza as poucas vantagens às quais as mulheres têm direito; é como o carimbo necessário para que possamos retirar certas regalias no guichê. Nada mais justo, já que o mundo todo veio, vem e virá das mães. O domínio só não está nas mãos da gente porque somos umas loucas. Umas loucas com poder - olha que susto! Eu tenho a força! Perigo, perigo! Com a complicação extra das mães terem a mania de acreditar que o universo lhes deve alguma coisa. Bom, veja bem, estraguei meu corpo, fiz um contrato de nunca mais dormir bem na vida, fui uma microempresa de laticínios por quase um ano sem auferir lucros, estragando meus seios para todo o sempre até chegar a plástica; então eu mereço o melhor assento em qualquer lugar. Presentes inusitados de meu marido, dos meus pais, dos meus irmãos. E interesse dos amigos, que só me ouvem falar de filhos. E condescendência do professor de yoga, pois não faço mais os ássanas direito, por não ter me recuperado da bomba atômica na barriga que é uma cesariana. Sem falar que, com toda a certeza, meus hormônios ensandeceram de vez, a ponto de clamarem ao mesmo tempo por chocolates e paz de espírito.
Essa fixação feminina com a sua prole é, dessa forma, bestial e compreensível, como um terrorista basco. E, nisso, toda mulher, ao tornar-se mãe, fica apenas mais uma, porém mais uma maravilhosa uma. Nada a difere, no cerne do mais íntimo, do uterino mesmo, de nenhuma outra mãe, mas é tudo tão diferente. Um exemplo disso é minha amiga Suzana - você sabe quem é. Sempre nos encontramos para morrer de rir de nós mesmas, as mãezonas, e elucubrar sobre novas velhas imprecisas impressões. Suzana implacável, espertíssima, estimulando bons momentos em mim sem que eles, nela, façam necessariamente eco. É curioso como, juntas, temos nos aperfeiçoado nestes momentos de pequena malvadeza materna. Está, inclusive, cada vez mais fácil passar os minutos entregues a constatações terríveis. Outro dia, até, criamos um refrão que daria uma puta música do Lulu Santos: ''quero ser esperto na medida certa''. Porque somos mães e bitches, temos maldade mas em bom coração. E quem lê estas linhas deve pensar que somos astutas e infernais, que nem duas Cindy Laupers brandando hinos às bad girls. Até somos, às vezes, tem dias, mas... Antes de todos os esterônios purpurinados, e batons sóbrios em bocas sóbrias, das unhas vinho e dos cigarros proibidos, a coisa nos iguala e acalma as indiossincrasias; digo a coisa dos humores ferinos advindos da ternura das proles. A coisa de ter filhos. Que - pasma constatei - torna o jogo mais divertido e brilhante. Até a inteligência doméstica, que pensei que jamais possuiria, aflora em sensatez com os mantimentos. O olfato de lobo, a sentir aromas que não conheço causa ou efeito. Cafona, né? Mas foda-se. Adoro a precisão térmica de vestir os bebês para um passeio. Os ouvidos que reconhecem quando choro longíquo vale a pena a ida. Essa sabedoria orgânica, molecular, que a mulher ganha de brinde junto com o saco aminiótico, a placenta, o ácido fólico, os hormônios do aleitamento, e sei lá o quê. A verdade é que é bom demais, chega a dar onda. Mas é preciso ainda mais cuidado com as sombras da avidez e vaidade.
Assim sendo, por isso tudo que sequer narrei, eu mereço mais. E um dia, sei, me acharei no direito de fazer cobranças horríveis às minhas filhas, e exigir delas que percam uma viagem imperdível para cuidar de mim.
O mundo poderia até se tornar melhor caso essa tendência meio mesquinha meio psicótica das mães fosse controlada. Mas sabe, Jacques, é difícil. Ter filho dá um treco na cabeça das mulheres, que elas ficam doidonas de vez. Um tipo de barato permanente, em ressaca permanente, que é um coquetel de sensação heróica, estado de graça, culpa, raiva e um amor desembestado. Por isso não vou temer que me joguem no asilo da velhice; eu mesma ponho-me nele se for necessário. Pretendo mesmo morar longe das minha filhas e ligar só quando elas ligarem primeiro. Estar sempre do lado delas quando elas quiserem. Mas não juro que, intimamente, eu não vá pensar: é, são umas mal-agradecidas. Porque - você vai perceber isso na sua - mulher mãe é um ser bem primitivo mesmo. E todas, de alguma forma, serão sempre iguais nessa premissa.
Parabéns pelo nascimento de Sophia. E cuidado com a esposa, ela agora é a dona do mundo. Sabe mais do que você e seus 23 livros de Freud.



10 comments:
Cla,
Felicidades pelo sobrinho(a)!
O texto da Fernanda Young é delicioso...Mas, como me disse a Frau Dubiski-Walther, numa das sessões da terapia: Quem não sabe o que é "ser mãe", sabe o que é "ser filho". Oje....
Beijocas!
parabéns!!
Ter sobrinhos é MUITO bom! São as crianças que você aproveita nos momentos bons e que, na hora dos choros incontroláveis, são rapidamente passadas de volta pros colos das mães ;)
Sou LOUCA pelos meus. A minha de 3 anos, que um gênio como o pai e solta frases incríveis quando a gente menos espera (e se cala nas horas seguintes, pra não gastar a atenção do público). E o meu de 1 ano, que é o amor da minha vida, que é o bebê mais lindo mundo, que dá gargalhadas e abraços e que, domingo passado, pulou no meu colo e falou pela prmeira vez "tia".
Estou cada vez mais convencida que fabricar estes sobrinhos é a maneira de nossos irmãos de nos compensarem pelos anos de implicâncias e brigas... :)
bjs!
Bárbara,
Que bom saber que vou receber compensação pelos anos que tive que aturar a Diva... hehe
Pô, o Pablo já tem dois?!
Estamos velhas mesmo!
Beijinhos,
Cla
Oi, Cla!
Parabéns pelo sobrinho que vai chegar!
Eu acho que ainda estou com vocação de ser filha, apenas. Tia pode até ser... Quem sabe minha irmã fura a fila? ;)
Bjs.
Parabéns pelo rebento da sua irmã! É sempre bom ter crianças por perto. Eu tenho mais vontade de ser tia do que mãe, pelo menos por enquanto. Embora eu tenha adorado ter trabalhado de voluntária numa creche, filho pra mim só é legal qdo é dos outros, hehehehe!
beijos!
PS: sobre o Bukowski, indico começar primeiro pelo livro Misto Quente, que é uma introdução ao universo decadente do velho safado!
amanhã dia das mães, e leio isso. Amei... parabéns pelo sobrinho.
Ola Clarisse, muito obrigada pela visita e pelo comentario no blog!!
seja sempre bem vinda!!!!!
Bjjs Laura
Ah, parabéns pelo sobrinho!!!!!! é sempre bom ter bebes por perto! =)
Muito divertido o texto da Fernanda Young. Ele nos faz encarar a maternidade de outra maneira, de um jeito que não estamos acostumados a perceber.
Parabéns pelo sobrinho!
Abraço,
Lelec
INTERESSANTE O TEXTO COM ALGUMAS RESTRIÇOES.VOCE SABERA COMO EU QUE NOS SENTIMOS MAES E SOMOS CHAMADAS DE TIA. BJOS
Post a Comment