
Sempre gostei de comer (grávida então, nem se fala!). Nada mais natural, logo que sou neta de mineiros, filha de baiano, e comida lá em casa sempre foi farta e fresca. Minhas memórias são vívidas e felizes:
Ainda criancinha, mal sabia falar, mas tinha um nome só meu para azeitonas: pedô.
A mamadeira de leite morno com açúcar antes de dormir (hoje em dia passo looonge de leite, doce ou não).
O pézinho de tomate-cereja que cresceu oblívio aos meus ataques com tesoura na casa dos fundos onde morava meu tio Edson.
O pratinho azul de plástico do lanche cheio de biscoitos Maria cobertos com uma grossa camada de manteiga e o copo de café com leite. Diva, minha irmã, tinha o mesmo prato, só que verde (foto).
A banana amassada com farinha láctea.
O bolo salgado com sardinha que minha mãe sempre fazia para eu levar pra escola quando tínhamos que contribuir pra clássica divisão dos “meninos levam bebida, meninas levam um prato de doce ou salgado”
O prato de mexidinho com os restos de arroz, feijão, couve, farofa e linguiça que batíamos cansados e famintos depois da praia.
O biscoito frito de restos de angu que minha avó mineira fazia (e o maior resto ainda que era a raspa da panela que ela cobria com leite e dava pro meu avô comer em frente à televisão).
O picolé de limão da Kibon que parecia ser mágico com seu palito “vale 1 picolé” na praia.
As vitaminas de abacate da nossa árvore do quintal e os pratos da fruta amassada com limão e açúcar que comíamos tanto.
Os milhares de lanches à base de banana que traçávamos na casa da prima Fátima nas tardes em que íamos brincar com Maria Fernanda e Raphael, e a fascinação que eu tinha pelo pé de romã deles no quintal.
O cachorro-quente da Casa do Alemão em Petrópolis, no caminho de Minas.
A feijoada da Dona Zezé, nossa eterna e querida vizinha. E as de Nilza, insuperáveis, em Padre Miguel!
As rosas de casca de tomate que tia Quita fazia para enfeitar a salada de maionese.
Os pães de queijo duros (para durar mais!) da vó Conceição.
E sua bem melhor galinha com quiabo, cujo ingrediente principal vinha do galinheiro ao lado da casa e eu mesma criança adorava puxar as penas da galinha de molho em água quente na bacia.
As idas de meu pai José ao mercado de peixes em Niterói bem cedinho nos sábados e sua vinda, um belo dia, com lagosta!
Nossos almoços de domingo no Bom Galeto, quando meu irmão Artur se apoderava de todos os palmitos da salada mista.
A pipoca com bacon que a Laura vendia na porta da escola.
O angu à baiana que eu só comia uma vez por ano na festa junina da igreja. E o sarapatel da falecida tia Margarida, baiana boa demais de forno e fogão.
A lasanha de trezentas mil calorias da Lica, nossa querida ajudante.
As mega-festas de minha mãe no terraço lá de casa com o prato temático do ano: estrogonofe, feijoada, peixada, rabada, e tantas outras adas.
O banquete completo baiano que minhas tias Miralva e Dinalva sempre preparavam para nós: caruru, vatapá, moqueca de camarões gigantes e fritada de siri mole.
O abará do beco no Garcia, em Salvador.
O sorvete de cupuaçú da Panini, também em Salvador.
O suco de melancia com maracujá que minha tia Elza nos apresentou e consta hoje na lista dos meus sucos prediletos.
O beijú de rua em Maceió fresquinho.
Os guaiamuns que tio Celso encomendou especialmente para nós, visitas de longe pro casamento da Adriana. Comemos e lambemos os beiços e braços, por onde o caldinho escorria.
E por falar em caldinho, o caldo de sururu na praia do Francês.
O pão que minha avó Palmira fazia pro lanche da tarde no Acupe. A receita escrita por ela tenho guardada com muito carinho.
A torta de limão com apenas 5 ingredientes que meu irmão Artur surpreendentemente introduziu lá em casa. Até hoje não sei de onde ele tirou a receita.
O suco de laranja no café da manhã espremido pelo meu pai, que vinha com o gosto do seu perfume exagerado de manhã.
Os docinhos, bolo e salgadinhos de festa que levávamos pro café da manhã do dia seguinte.
Trauma também é lembrança: a dobradinha que minha mãe me forçou a comer quando criança e não descia de jeito nenhum garganta abaixo.
As papinhas que pude preparar pro meu sobrinho Davi e minha surpresa ao notar que o neném gostou de couve roxa com cravo!
Minha irmã com suas compulsões por chocolate e seus ataques macrobióticos com arroz integral e carnes de soja enlatadas.
As latinhas de salsicha tipo Viena que abria e comia sozinha, mesmo sendo banhadas numa gelatina nojenta.
A primeira vez que comi arenque cru na Holanda e detestei. E todas as outras vezes que comi e amei.
Os churrascos extraordinários na casa da Fátima, em Inhaúma. E os pratinhos de plástico de suas festas com pernil, farofa, maionese e arroz.
O arroz de jasmim cheiroso de alho da Ana Maria.
O pudim de leite que minha mãe fazia quando queria agradar meu pai.
O arroz e feijão fresquinhos que a Lica preparava antes de eu ir trabalhar na redação da SuiGeneris. Café da manhã e almoço em uma só refeição.
Os figos e goiabas que só eu lá em casa gostava.
O saquinho miserável de cerejas que meu pai trazia da feira na época do Natal. E os sacões de laranja que sempre comprava no resto do ano.
O café doce e fraquinho da tia Gabriela para acompanhar os biscoitos de fubá ou de polvinho guardados em latonas de gordura vegetal que ela e minha avó faziam no forno de lenha (um dia achamos um escorpião lá dentro).
A sopa no pão do Café Franz que traçava no fim da noite no Leblon.
A sopa de ervilha holandesa (erwtesoep) de minha eterna sogra, Marlien, servida grossa com pão pumpernickel e fatias de bacon.
A batata assada com queijo que tia Nati faz tão bem aos domingos.
E tantas outras atuais e guardadas na memória…
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5 comments:
SABOROSAS AS RECORDAÇÕES, EU FICO AQUI RECORDANDO COMO ERA GOSTOSO AQUELE TEMPO, TANTA UNIÃO, TANTOS RISOS. BJS TE AMO
Essas lembranças gastrônomicas sao as melhores. Eu lembro muito de comer na casa da minha avó num pratinho fundo azul marinho goiabada em pedacinhos com leite. Ai que saudades!!!! E o arroz com queijo?? hhmmmmmmmm Adooooooooro!!
Cla, que é que eu vou fazer agora?? Tô com fome!!!
Como me lembro desses pratinhos.Essa foto ainda era na casa dos fundos.Quando eu chegava mais cedo,dava lanche a voces e iamos passear ,ver dona zeze ou mais longe.O alimento ele tem varias funçoes e uma delas e ser um ativador de lindas recordaçoes.Por isso nao comemos ou gostamos tanto de alguns alimentos.Muio boa a viagem comestivel familiar.Voce e dona de uma bela e bonita memoria.
...E a gravidez, como está? :)
Ai que delicia de post! Lembrei de tantas coisas da minha casa no Brasil, mas uma...o biscoitinho Maria com manteiga no fim da tarde! Ai saudade!
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